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COMO O TIKTOK

              DEFINE A

ESTÉTICA DO

            FUTURO EM

TEMPOS DE

    QUARENTENA.

Durante o período de isolamento social, as pessoas que podem ficar em casa estão lidando - cada uma da maneira que pode - com o tanto de tempo que de repente ganharam. No começo do isolamento houve uma explosão de cursos grátis online, e o discurso na internet era “aproveite esse tempo para melhorar seu currículo”. Das últimas semanas pra cá temos sido mais gentis com nós mesmos, entendendo que talvez a pausa seja necessária já que esse é um período de muita insegurança e preocupações suficientes para a saúde mental digerir.

 

Mas além de cursos, novos projetos, séries e leituras em dia, o movimento de adesão ao app TikTok, que já era monstruoso, tornou-se ainda maior com a disponibilidade de tempo. O aplicativo de vídeos curtos que em 2019 ultrapassou o Facebook e Instagram em número de downloads, em março deste ano foi um dos mais baixados em todo o mundo, como aponta relatório da Sensor Tower, somando uma base de 800 milhões de usuários.

Se no Twitter o normal é o desabafo, e no Instagram é a beleza que comanda, os carros-chefe no TikTok são os conteúdos de humor no estilo Vine, e as dancinhas que aparentemente todo mundo sabe fazer, o que exige uma certa entrega e dedicação à cultura dos usuários que em sua maioria são jovens de 10 a 25 anos, apesar dessa faixa estar expandindo com o crescimento do app. 

As dancinhas são uma grande barreira para a galera mais adulta que chega agora no aplicativo. Para quem está acostumado com as poses e falsas realidades do instagram, é um pouco difícil descer do salto e se divertir sem julgamentos. Mas uma vez que a linguagem do app se torna mais familiar, é inevitável que uma hora você se perceba aprendendo uma coreografia, nem que seja no seu quarto, em segredo.

 

Considerando que é a geração Z que predomina, é interessante observar o comportamento dessa galera que ditará as tendências mundiais num futuro nada distante. Se a pergunta é se para essa galera existe espaço para atitudes machistas, homofóbicas, racistas, etc, a resposta é não. Sob pena de ser cancelado no supremo tribunal da internet.

Na verdade é até empolgante observar os garotos no aplicativo, que mesmo héteros, apresentam consciência muito maior do que a geração anterior. Podemos dizer que são garotos um pouco mais desprendidos das amarras tóxicas que definem os padrões de masculinidade.

Amelia Gavin expõe garota branca que usa a palavra "Nig*a", ofensiva para a população negra.

188.500 Likes

Em uma escala menor de usuários, é quase regra que no seu perfil seja apontado por quais pronomes de gênero você prefere ser tratado. Os diversos memes questionando se ainda existem pessoas heterossexuais em 2020, partem de um consenso de que a sexualidade é fluida e dificilmente alguém é naturalmente 100% hétero. Essas são características que demonstram muita facilidade em discutir sexualidade e gênero, discussões que só apareceram na vida da geração anterior em um estágio um pouco mais avançado da vida.

Se moda é comportamento, é interessante observar também os estilos. Assim como no Instagram, existe um número grande de biscoiteiros, e como em todo lugar na sociedade, quem está nos padrões de beleza faz mais sucesso. Mas o curioso é que ter estilo não é garantia de sucesso. Dificilmente os vídeos das garotas mais famosas no aplicativo tem apelo de moda. Apesar de algumas grifes já estarem de olho na potência da comunidade, na maioria das vezes, as roupas são as que usam para ficar em casa mesmo, e isso não é efeito da quarentena, esses jovens já cresceram adeptos do distanciamento social.

Addison Rae

33.8 milhões de seguidores.

Jalaiah Harmon

Criadora da coreografia mais famosa no aplicativo.

Charli D'amelio

48.8 milhões de seguidores.

Curiosamente, os garotos são os que se produzem mais, e as garotas representam (com exceções) quase um estilo normcore, muitos moletons e blusinhas básicas envolvidos. Mas é claro que existem os que se expressam um pouco mais. Na subcultura dos e-boys e e-girls, nomes que referenciam a uma cultura online, os jovens seguem o movimento irônico e contrário ao da beleza de influencer, uma versão atualizada dos emos nos anos 2000.

Lil Huddy

18.5 milhões de seguidores.

Michael Le e Noeah Jacobs

17.2 milhões de seguidores.

Ondreaz Lopes

11.7 milhões de seguidores.

Na música, é quase como se não existissem mais gêneros musicais extremamente delimitados, e isso reflete nos gostos musicais que são bastante abrangentes. Não existe mais a cultura de só poder escutar um estilo porque ele define quem você é. Apesar disso, um estilo musical que devemos prestar atenção é o bedroom pop, que tem esse nome por serem produções caseiras. A estética desse som é leve e despretensiosa, encabeçada por artistas como Clairo, Boy Pablo, Girl in Red, Cuco, Rex Orange County e Soccer Mommy.

Não é de se espantar que, agora com boa parte da população mundial isolada em casa, essas estéticas dos jovens que criam e se expressam em seus próprios quartos, apareçam cada vez mais em evidência. E se antes parecia tudo errado, se o sentimento constante era de que a humanidade estava perto de um colapso, é para esses jovens que precisamos olhar se quisermos reconstruir nossas vivências daqui pra frente. Um futuro com menos falsas realidades no Instagram, e mais diversões despretensiosas no TikTok.

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