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Vivemos um tempo em que muito se fala sobre a emancipação feminina, principalmente relacionada à autonomia da mulher sobre o seu próprio corpo. Apesar de ainda existir um longo caminho a ser trilhado, temos a plena consciência do quanto o processo para que tenhamos hoje, em partes, atingido essa conquista, foi necessário travar uma árdua luta contra a sociedade machista.

 

Durante os meus inúmeros processos de autodescoberta, pesquisas e reflexões enquanto mulher negra, notei que o fator ''corpo'', sempre tão comentado dentro do movimento feminista, se tornou um questionamento muito grande para mim, pois até tempos atrás, eu nem ao menos tinha parado pra analisar que possuía de fato, um corpo.

 

É claro que, dentro do âmbito biológico, eu sabia que o meu corpo estava ali; que me sustentava, que me permitia me movimentar. No entanto, acabei descobrindo que este corpo, carregado de tantas histórias e vivências, na realidade não possuía uma identidade. Dentre todas as perdas histórico-sociais, falta de representatividade, apagamento e embranquecimento da cultura, sem mencionar outros aspectos que envolvem o desenvolvimento da história da população negra no Brasil, me vi distanciada de outro pilar importantíssimo dentro da minha construção - não apenas como mulher negra, mas também como ser humano.

O processo no qual uma mulher branca acaba se autodescobrindo, e a forma como enxerga seu corpo, é muito diferente de uma mulher preta, isto é inegável. Os valores e sentidos atribuídos ao mesmo, em ambos os casos, foram construídos histórica e socialmente de maneiras distintas. Assim sendo, para que seja possível construir esta noção - isto é, da visão e reconhecimento do próprio corpo, enquanto mulher preta -, é necessário fazer um resgate do fator histórico, silenciado e doloroso, que contribuiu para o apagamento da nossa consciência corporal dentro da sociedade. A construção do processo de emancipação feminina do corpo da mulher negra deve ser entendida a partir do fato de que a socialização racista e sexista fez com que a raça, durante o desenvolvimento da ordem social, fosse o único rótulo importante de nossa identificação.

 

Ao retornarmos no processo histórico, vemos o quanto nós, mulheres pretas, fomos marcadas pelo estigma da escravidão, momento este em que os corpos de nossas ancestrais foram brutalmente violados, explorados e desqualificados - processo racista e machista que, devido à dupla opressão, nos deixou como herança o ideário de que os nossos corpos só serviam ou para o trabalho árduo e braçal ou para o prazer. Analisando esses fatores, podemos concluir que o corpo da mulher negra nunca a pertenceu, de fato.

‘’A mulher negra é desprotegida quer pela lei ou pela opinião pública. Ela é propriedade do seu dono e suas filhas também são sua propriedade. É lhes permitido não terem consciência de escrúpulos, não terem sentido de vergonha, não terem consideração pelos sentimentos...''

Quando finalmente descobrimos a nossa identidade, temos consciência das potencialidades do nosso corpo - construímos, então, o centro da nossa própria história e, assim, podemos contar as nossas verdades.


Compreender este corpo, que foi mutilado durante a história, é o passo inicial para nos descolonizarmos e finalmente libertá-lo das amarras históricas que o aprisionaram. Além de entender os processos que envolvem a emancipação do corpo da mulher negra, é preciso lutar, unidas, pelo mesmo.

É por este motivo que nossa história foi e ainda é contada a partir de narrativas de terceiros; a partir do olhar destes sobre os nossos corpos. É a razão pela qual nos rotulam, nos hipersexualizam e nos perseguem com esterótipos.

Nosso corpo é onde mais carregamos as nossas verdades, ancestralidade e história, e é empoderador quando finalmente temos consciência disso.

É crucial entender a história da mulher preta brasileira, bem como as consequências da mesma refletidas na realidade contemporânea, para adquirimos plena autonomia sobre nós mesmas e nossos corpos. O empoderamento está em nos autocompreender, bem como em nos tornar cientes dos processos que nos sujeitaram à sermos quem somos, a partir da visão da sociedade. E a partir deste momento, nos libertar: romper com as correntes de estigma que impedem que nos vejamos de verdade e nos amemos como tal.

Bell Hooks, autora feminista e ativista negra, reforça em sua obra ''Não Sou Eu Uma Mulher: Mulheres Negras E Feminismo'' (2014) e mostra, em sua escrita, o quanto os danos e abusos acometidos a nós, mulheres pretas, nos silenciaram e fizeram com que nós não tivéssemos consciência do que de fato nos pertence, uma vez que sempre fomos consideradas como propriedade de qualquer outra pessoa, menos de nós mesmas. Ainda em seu livro, Bell Hooks comenta:

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