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Estou sentindo falta de mulheres na moda. É inegável o grande papel que vem sendo desempenhado através da participação de diversos movimentos em prol do empoderamento de minorias, principalmente ao tratarmos de feminismo e direitos LGBT. Nossas lutas não apenas vendem, como também, aliadas da construção de discurso imagético veiculado em revistas, redes sociais e publicidade, dão forma a discursos que se tornam capazes de comunicar manifestações sociais e políticas em moda, corpo e gênero.

Ao se tratar das maneiras postas sobre as roupas para produzir discurso, somos levados, enquanto seres sociais e formadores de sociedade, a repensar a moda como nossa linguagem. Assimila-se a ideia de que nossas roupas se comportam como captadoras de plataformas vestíveis, que a representam como sistema composto de signos capazes de indicar formas de expressão linguística para comunicação. Inserimos nessa linguagem a ideia de canal para trânsito de ideologias, manifestações culturais e compatibilidade social. 

O indivíduo, ao praticar linguagens do sistema de moda, se encontra embebido de seu contexto. Deste modo, referenciais estéticos e imagéticos (tais como cor, formas, materiais, etc.) se fazem presente, juntos a semânticas, dialogando com sua postura e sentimento diante do recorte de mundo em que é colocado. Assim, assumindo fortes influências de nossa bagagem referencial na criação de discurso, coloco: por quem estão sendo construídas as imagens as quais consumimos como referência em moda?

 

 
Até mesmo o ato de tratar de empoderamento feminino, termo que ultimamente tem-se reforçado por múltiplas campanhas publicitárias, aponta o quanto a luta feminista, embebida de referenciais liberais, pode ser rentável. Girl Power! (ou seria o poder de compra de determinadas mulheres¿). É necessário observarmos, a partir de olhares mais atentos, a composição de corpo criativo de produtos em moda. 

O enfrentamento contra o machismo, a cada dia, não acontece apenas nos gestos que denunciamos na mídia. Em se tratando do sistema de moda, manifestações sexistas são fortemente sentidas pelas mulheres profissionais de moda que estão dentro do mercado, através da concorrência desleal, favoritismo, olhares mais atentos e maiores expectativas vindas das produções masculinas. Também ocorrem imposições de poder correlacionadas ao machismo estrutural e à construção social de masculino, características as quais, muitas vezes, acabam caminhando para a invisibilidade quando estes colegas de trabalho são LGBTs homens. Posto isso, fica a motivação para nos atentarmos a comportamentos que fogem a nossos ideais de equidade, representando certo machismo velado, sem excluir a luta de homens gays no mercado de trabalho ainda simpático a heteronormatividade.

O mercado de moda é composto, em sua maioria, por mulheres, seja a nível de criação, desenvolvimento ou produção. São milhares de mulheres em nome de uma área encabeçada por homens, de confiança dedicada a homens, que muitas vezes são escolhidos ou contratados via decisões masculinas, cumprindo papel de chefia e responsáveis pelas principais escolhas dentro de seus projetos, sendo estes: estilistas, produtores, fotógrafos, maquiadores, cabeleireiros, editores, todos majoritariamente de sexo masculino. Ocorre um movimento em que homens escolhem homens. Seja para curadoria de peças ou direção no set a imagens de moda, leia-se principalmente a construção de imagens de empoderamento feminino ou orgulho LGBTI, é formulada, muitas vezes, a partir de um consenso masculino, que escolherá peças de determinado designer e decidirá como este será visto. O mercado, em muitos momentos, é feito para homens, assim como todo o processo de beleza, discurso, estética e gestão que, mesmo em um universo preenchido pelo trabalho de uma grande quantidade de mulheres, é pensado e tratado sob a ótica masculina. 

Desenha-se um cenário de grande participação feminina e, ainda assim, poucos votos de confiança, demonstrando uma cobrança muito maior ao compararmos com o trabalho feito por homens - as expectativas são outras, sendo nós, mulheres, o tempo inteiro colocadas a prova. Sendo assim, é necessário que treinemos nossos olhares a algumas “armadilhas do machismo”, tais como a desqualificação e falsa proteção das mulheres. 


De forma explícita ou não, os profissionais de comunicação irão gerar fortes influências sobre a produção que se planeja expor. Nossas bagagens culturais são de raízes fortes, e sabe-se que, ao construirmos um discurso artístico e/ou estético, não nos ausentamos de nossas ideologias e pretextos, e da mesma maneira se manifesta a moda. Indico verificar por quem são assinadas produções de moda, editoriais, fotografias, direção criativa ou afins nos grandes veículos midiáticos de moda, e assim possa-se repensar, de maneira até contábil, o quanto se bebe de pretextos machistas na elaboração de discurso. Por fim, a equidade não é apenas uma questão de aparência e discurso, ela se coloca também na participação efetiva entre homens e mulheres dentro e fora dos setores de mercado.

TEXTO: Violeta Sutili

DIAGRAMAÇÃO: Taina Lima

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