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Por que o estilo cowboy contemporâneo é reparação histórica para a população preta.

A cultura country, nos últimos 3 anos, lentamente se fez presente em diversas áreas criativas. Na música, Beyoncé com Daddy Lessons no Lemonade, Lady Gaga com o álbum Joanne, Miley Cyrus e o Younger Now. Recentemente, tivemos Kacey Musgraves ganhando o prêmio mais importante do Grammy, e Solange Knowles reforçando o look cowboy em seu último álbum visual. Mitski, Cardi B, Maren Morris, Travis Scott, Quavo, Kelela... só para nomear mais alguns e engrandecer a lista.

Na moda, Raf Simons na coleção de outono/inverno 2017 para a Calvin Klein, Vaccarello em sua primeira coleção masculina para a Saint Laurent, Pyer Moss na campanha para o outono/inverno 2018 e, mais recentemente, a Telfar Clemens para o de 2019.

Nos anos 2000, o look cowboy vivia seu ápice na cultura do hip hop e do R&B. Em uma análise rasa de tendências, poderíamos afirmar que essa movimentação seria o próximo passo do que vivemos nos últimos anos, resgatando a moda dos anos 90. De fato, ícones dos anos 2000 como o Motorola V3 e os famosos looks de Paris Hilton parecem ser cool novamente 👀.  Mas, numa leitura mais profunda da estética, a “yeehaw agenda”, como foi apelidada pelos usuários do Twitter, serve como ferramenta de resgate histórico para incluir as comunidades de cowboys negros na construção da cultura pop norte-americana.

O imaginário coletivo que se tem do Faroeste é o construído pelos filmes hollywoodianos de bang-bang: homens brancos, valentes, viris, a definição da masculinidade tóxica. Mas é justamente nessa produção cultural de Hollywood que ocorre o apagamento histórico da população preta. Estudos relatam que por volta de 1800, 25% dos cowboys trabalhando nas fazendas do oeste eram negros.

Além do fator histórico, há também um fator comportamental que exerce influência sob essa onda. Em recente pesquisa, a Infobase Interativa divulgou que 64% dos jovens praticam, de tempo em tempo, o detox das redes sociais, por sentirem que o uso prejudica a saúde mental. A independência que a gente precisa pra viver fora da bolha entorpecente das redes sociais é traduzida pela figura do vaqueiro, que representa a independência, a solidão e a coragem de viver trilhando seu próprio caminho. Conectado às simplicidades da terra, alheio à civilização metropolitana e suas falsas realidades.

A moda desempenha papel fundamental no processo de construir imaginários. Ao vestir e colocar corpos negros em evidência no caráter do cowboy, a cultura de massa com seus influenciadores reconfigura a consciência coletiva da estética cowboy caucasiana, e corrige o apagamento histórico da população negra na iconografia da cultura pop americana.

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