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Todos os dias, são postadas mais de 93 milhões de selfies na internet. A gente tira várias e edita a mais bonita para postar e receber uns biscoitos. A selfie apresenta a melhor versão possível do seu eu, é uma tentativa de construir identidade, pertencer a um grupo e se encaixar em um padrão de beleza. 

 

A selfie é elevada a um outro nível de relevância quando abrimos mão de tirar uma foto para mostrar o quão bonitos nós somos, e decidimos tentar mostrar quem somos. É aí que entra o conceito de autorretrato: se no retrato comum o fotógrafo tenta capturar a essência e personalidade de uma pessoa, no autorretrato é você quem diz como quer ser enxergado pela sociedade.

 

E esse é um ato libertador. Se a você sempre foi negado o poder de se sentir bonito(a) por estar fora dos padrões excludentes de beleza, ou se ao seu corpo sempre foram atribuídos preconceitos que não lhe cabem, você pode reivindicar a sua beleza única em uma imagem que não peça aprovação social dos outros como as selfies fazem, mas imagens que possam dizer “estou aqui, sou assim, e sou perfeito(a)”. 

 

Além do fato de que, quando expondo quem somos, a gente não entra no ciclo que acaba com a nossa autoestima de comparar a nossa beleza com a beleza dos outros nas redes sociais. Porque não é sobre ser bonito, é sobre impor quem você é, independente de quem seja.

Caravaggio (1597)

 Frida Kahlo (1940)

Van Gogh (1889)

Grandes artistas da história da arte perpetuaram suas imagens através dos séculos, com autorretratos, nos quais eles pintavam o que enxergavam no espelho, mas a forma como eles se posicionaram para se retratar, o ambiente, a luz, cores e vestimentas escolhidas, dizem muito sobre como eles gostariam que a sociedade os vissem. Na Medusa de Caravaggio, por exemplo, historiadores afirmam que o rosto da medusa, na verdade, é o rosto do próprio artista, uma maneira icônica de representar sua identificação com a personagem da mitologia grega.

Nem pra todo mundo cabe um modelo audacioso de se expressar. Às vezes, a personalidade da pessoa pode ser expressada em uma singela selfie com um sorrisinho sincero, e tá tudo bem também, desde que a essência dela esteja ali.

 

Nossa autoimagem caminha para deixar de ser definida pela classe social da qual fazemos parte, pela idade que temos ou por nossa localização geográfica, para ser definida por nós mesmos, de acordo com as nossas narrativas, escolhas, sentimentos e identidades. O autorretrato é uma ferramenta empoderadora, que nos liberta dos outros e nos conecta com nós mesmos.

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